Para que um produto receba a denominação de orgânico, ele deverá ser proveniente de um sistema de produção em que tenham sido aplicados os princípios e normas estabelecidas na regulamentação da produção orgânica, por um período pré-determinado, de acordo com legislação vigente. É o que acontece com a produção do leite orgânico.

No Brasil, há um crescimento desse tipo de mercado nos últimos anos, acompanhado uma preocupação mundial em relação a questões ambientais, de sustentabilidade e de qualidade dos produtos pelos consumidores.

Entenda, neste post, como funciona o processo de transição entre o sistema de produção de leite convencional para o orgânico e confira quais são os desafios enfrentados por esse mercado!

O que é o leite orgânico?

O leite orgânico é produzido sem a utilização de agrotóxico ou fertilizantes químicos na alimentação do animal e, por isso, favorece o meio ambiente. Apesar de ter a mesma composição química do leite obtido de forma convencional, o orgânico é conseguido apenas por fazendas certificadas. Por essa razão, há a garantia de não conter resíduos químicos de qualquer espécie — como agrotóxicos e medicamentos.

O gado de leite alimenta-se de nutrientes em sua grande maioria orgânicos. A suplementação de minerais e vitamínicos não pode conter resíduos contaminantes acima dos limites permitidos pela legislação.

Além disso, os animais que produzem o leite orgânico não podem ser criados em sistema de confinamento exclusivo. Nesse caso deve-se utilizar o máximo do sistema de forragem, que deve constituir pelo menos 60% da matéria seca da dieta, permitindo-se redução dessa percentagem para 50% aos animais em produção leiteira.

Eles devem ter acesso à água em quantidade e qualidade, e às áreas de pastagem com vegetação arbórea suficiente para garantir sombra aos animais. O sistema deve assegurar prioritariamente a saúde e o bem-estar animal em todas as fases do processo produtivo.

Como é feita a produção do leite orgânico?

O sistema de produção do leite orgânico deve respeitar as premissas da agroecologia, que buscam uma exploração economicamente viável, ecologicamente correta e socialmente justa.

Nesse tipo de produção, os animais não podem ser criados em sistema de confinamento. Algumas outras premissas da produção do leite orgânico são:

  • animais que se alimentam de nutrientes, em sua maioria, orgânicos;
  • pastagem livre de fertilizantes e agrotóxicos;
  • ausência de transgênicos na alimentação;
  • instalações adequadas para o conforto dos animais;
  • uso de homeopatia, fitoterapia e acupuntura, como tratamento veterinário;
  • respeito ao programa de vacinação obrigatório estabelecido por lei.

Tratamento de doenças na produção de leite orgânico

O tratamento de doenças e controle de endo e ectoparasitas na produção de leite orgânico só pode ser realizado com a utilização de produtos homeopáticos, fitoterápicos e com emprego de manejos estratégicos.

Entretanto, quando esse tipo de tratamento não for efetivo e houver risco de morte do animal, é permitido a utilização de medicamentos alopáticos. Dessa forma, após ser medicado, ele é identificado e separado do rebanho.

Também deve-se considerar o dobro do período de carência que é indicado pelo fabricante. No mais, o tratamento com medicamento alopático só será permitido 2 vezes por ano para cada animal, sendo necessário realizar o registro em um livro específico com todas as informações pertinentes ao tratamento. Por fim, é permitido a utilização de vacinas de acordo com o cronograma vacinal da região.

Reprodução do rebanho

Em relação à parte reprodutiva do rebanho, é possível utilizar a inseminação artificial desde que o sêmen seja proveniente de touro criado em sistema orgânico.

O programa de melhoramento genético do rebanho deve ter como objetivo principal a busca por características relacionadas com a adaptabilidade às condições ambientais e rústicas, além da valorização dos aspectos culturais e regionalização da produção.

Como realizar a conversão do sistema convencional para o orgânico?

Para produzir leite orgânico é necessário fazer uma conversão do sistema convencional para o sistema orgânico. Esse processo dura em torno de 18 meses, sendo então obtida a certificação e o acesso ao selo de orgânico.

Nesses 18 meses de conversão do sistema convencional para o orgânico, cerca de 12 meses são destinado à conversão das pastagens — que devem ser livres de fertilizantes e agrotóxicos.

A conversão dos animais é feita em 6 meses com a utilização de alimentação parcialmente orgânica. Nesse caso, é permitido apenas 15% da ingestão de matéria seca de alimentos convencionais, mas que não sejam provenientes de transgênicos.

Durante o processo, pode-se utilizar suplementos minerais e vitamínicos, desde que em sua composição química não contenha resíduos contaminantes acima dos limites permitidos pela legislação.

Algumas recomendações são sugeridas para esse processo de transição entre sistema convencional para orgânico, como:

  • implantação de sistemas agroflorestais;
  • rodízios de pastagens;
  • utilização de estercos e adubação verde;
  • raças de animais mais resistente aos ectoparasitas.

Quais as normas para a produção do leite orgânico?

Para produção do leite orgânico em alta qualidade, é preciso ter certificação em empresas públicas ou privadas credenciadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Elas têm como função avaliar se os requisitos técnicos estabelecidos pela legislação brasileira estão sendo cumpridos durante o processo de conversão e, também, após certificação das propriedades.

Dessa forma, os produtores que optarem pelo sistema orgânico devem contratar as certificadoras que iniciarão o marco zero do processo de conversão para sistema orgânico.

Além disso, farão com que a Lei 10.831 de 23 de dezembro de 2003 e a Instrução Normativa Nº 46, de 6 de outubro de 2011 que regulamentam a produção, o armazenamento, a rotulagem, o transporte, a certificação, a comercialização e a fiscalização dos produtos sejam cumpridos pelos produtores orgânicos.

A importância da certificação do leite orgânico

A certificação da produção do leite orgânico é realizada por empresas idôneas que são credenciadas pelo MAPA. Ela assegura que os produtores cumpram os requisitos estabelecidos na legislação, com monitoramento por auditorias anuais.

Isso garante que o produto final não seja fraudado e o consumidor, enganado — tendo em vista que existem citações de grandes empresas internacionais que se apropriaram do termo orgânico, mas que foram obtidos por sistemas convencionais.

Sendo assim, o leite orgânico certificado é facilmente identificado pelo selo em seu rótulo. Isso garante ao consumidor que esse produto foi obtido dentro dos padrões da agricultura orgânica.

Segundo a legislação brasileira, também é permitido a produção de mercadorias orgânicas e não orgânicas na mesma propriedade, desde que haja separação entre os processos produtivos. Além disso, não pode haver contato de substâncias não autorizadas pelo sistema orgânico.

Quais são os principais desafios na produção do leite orgânico?

Existem muitos entraves para produção de leite orgânico. Dentre eles, está principalmente a dificuldade na obtenção das matérias primas orgânicas, como milho e farelo de soja. Como esse tipo de ração tem sua produção em grande parte transgênica, isso limita a produção de milho e soja orgânicos, aumentando o custo.

Aspecto muito relevante é a falta de parceria com instituições que financiem o período de transição dos sistemas. Isso acontece porque o processo é demorado e tem muitos obstáculos, fazendo com que o produtor desamparado desista antes de finalizar a conversão.

A maioria dos produtores orgânicos têm pequena extensão de terra e baixo nível tecnológico e, portanto, poucas áreas de pastagens e de cultivo. Por isso, precisam suplementar a alimentação do rebanho com rações comerciais que não são orgânicas.

Outro entrave para a produção do leite orgânico é que grande parte dos produtores têm pouca escolaridade. Por essa razão, necessitam de uma assistência técnica especializada. Afinal, o processo de certificação é bastante burocrático.

Por fim, o elevado custo de produção impacta no custo final do produto, restringindo a um reduzido mercado consumidor, constituído em sua maioria pela população de maior poder aquisitivo.

Apesar de enfrentar desafios, a produção de leite orgânico pode ser uma realidade rentável para o fazendeiro que preza por boas práticas na gestão rural. Respeitar o bem-estar animal e preparar-se para o sistema de transição entre o método convencional para o orgânico faz com que seja possível produzir leite livre de qualquer tipo de resíduo químico.

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Este conteúdo foi elaborado com a colaboração de Vitor Pereira Bettero, especialista em Nutrição de Ruminantes da Vaccinar, e Flávia Aparecida Nogueira, trainee no Departamento de Nutrição e Tecnologia.

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