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Blog da Vaccinar – Nutrição e Saúde Anima
Aves

Impacto da Qualidade de Casca na Postura Comercial

Publicado por Luanna Sales em | Atualizado em
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10 minutos para ler

Por Luanna Aparecida Sales

A qualidade de casca é um importante indicador de eficiência na avicultura de postura comercial, com impacto direto sobre a rentabilidade e a segurança dos alimentos (Yu et al., 2025). Mais do que um atributo visual, a casca atua como barreira física e anti microbiológica, protegendo o conteúdo interno do ovo contra danos mecânicos e contaminações externas (Wang et al., 2025). Alterações em sua estrutura aumentam a ocorrência de ovos quebrados, trincados ou deformados e, consequentemente, as perdas ao longo da cadeia produtiva (Elnesr et al., 2024).

A casca corresponde a aproximadamente 9 a 11% do peso total do ovo e é formada predominantemente por carbonato de cálcio, que representa cerca de 94 a 95% de sua matéria seca (Butcher; Miles, 1990; Chang, 2020). Sua formação ocorre principalmente durante a permanência do ovo no útero, também denominado glândula da casca, onde acontece o processo de mineralização. Esse processo é complexo e influenciado por fatores fisiológicos, genéticos, nutricionais, sanitários e ambientais (Gautron et al., 2021).

Entre os aspectos nutricionais, a disponibilidade e o adequado equilíbrio entre cálcio e fósforo exercem papel fundamental na formação e na manutenção da qualidade da casca (Leeson; Summers, 2001). O cálcio é o principal mineral envolvido na mineralização da casca, participando da formação do carbonato de cálcio, responsável por grande parte de sua resistência mecânica. Estima-se que cada casca contenha aproximadamente 2,0 a 2,2 g de cálcio (Butcher; Miles, 1990; Chang, 2020), o que evidencia a elevada demanda desse mineral pelas poedeiras comerciais.

A calcificação se estende pelas últimas 19 a 20 horas da formação do ovo, ocorrendo em grande parte durante o período noturno, quando o consumo de ração tende a ser reduzido. Por isso, a disponibilidade contínua de cálcio é especialmente importante. Durante esse período, cerca de 20 a 40% do cálcio utilizado pode ser mobilizado das reservas ósseas (Chang, 2020; Sinclair-Black; Garcia; Ellestad, 2023).

Entretanto, a qualidade de casca não depende apenas do cálcio. O fósforo participa do metabolismo ósseo, da mobilização mineral e da manutenção das reservas corporais utilizadas durante sua formação (Chang, 2020). Sua deficiência pode comprometer a mineralização óssea, reduzir a eficiência de utilização do cálcio e limitar a reposição do osso medular, importante reserva de cálcio mobilizada durante a formação da casca (Whitehead, 2004). Por outro lado, níveis excessivos de fósforo também podem prejudicar a qualidade da casca, uma vez que o fosfato atua como inibidor da formação de cristais de calcita (Butcher; Miles, 1990; Sinclair-Black; Garcia; Ellestad, 2023).

Mais do que os níveis isolados, a relação entre cálcio e fósforo também merece atenção. Desequilíbrios podem reduzir a absorção e a utilização metabólica desses minerais, com reflexos sobre a espessura, a resistência e a uniformidade da casca. O excesso de cálcio associado a baixos níveis de fósforo disponível, por exemplo, pode favorecer a formação de complexos cálcio-fitato e reduzir a degradação do fitato, comprometendo a disponibilidade do fósforo e o aproveitamento mineral (Chang, 2020; Elnesr et al., 2024; Hervo et al., 2023; Leeson; Summers, 2001).

Outro aspecto relevante diz respeito às características físicas das fontes minerais utilizadas. No caso do cálcio, a granulometria do calcário influencia sua dinâmica de liberação no trato digestório. Partículas mais grossas permanecem por maior tempo na moela, favorecendo a liberação gradual do mineral durante o período noturno e reduzindo a necessidade de mobilização das reservas ósseas (Chang, 2020; Leeson; Summers, 2001). Como exemplo, em poedeiras de 31 a 35 semanas, o uso de uma mistura com maior proporção de calcário grosso (2 a 4 mm) aumentou o peso e a espessura da casca em aves sem suplementação de fitase (Hervo et al., 2023). Essa estratégia torna-se particularmente importante em lotes de maior idade e em ciclos produtivos mais extensos.

A idade das aves é outro fator determinante para a qualidade da casca. Com o avanço do ciclo produtivo, o peso e a superfície do ovo aumentam, enquanto a capacidade de deposição mineral nem sempre acompanha esse crescimento, o que pode reduzir a espessura e a resistência da casca (Butcher; Miles, 1990; Chang, 2020; Flock, 1994). Esse efeito pode ser agravado quando não há ajustes adequados nos níveis e no equilíbrio entre cálcio e fósforo ao longo das diferentes fases de produção. Além disso, a eficiência de absorção intestinal de cálcio tende a diminuir com a idade (Sinclair-Black; Garcia; Ellestad, 2023). Em poedeiras de 74 semanas, por exemplo, cascas mais frágeis foram associadas a alterações no transporte de cálcio no útero, e não à insuficiência das reservas minerais ósseas (Fu et al., 2024).

As condições sanitárias também exercem influência importante sobre a qualidade da casca. Doenças que acometem o trato reprodutivo, como bronquite infecciosa, síndrome da queda de postura e micoplasmoses, podem comprometer a funcionalidade do oviduto e interferir no processo de mineralização, aumentando a ocorrência de ovos rugosos, deformados e com casca mais frágil (Butcher; Miles, 1990; Kursa et al., 2019; Chang, 2020). Além disso, a presença de micotoxinas na alimentação pode prejudicar a absorção intestinal e o metabolismo hepático, reduzindo o aproveitamento de nutrientes envolvidos na formação da casca e, consequentemente, afetando sua qualidade (Chang, 2020; Zhao et al., 2021).

As condições ambientais também exercem papel importante na qualidade da casca. Em situações de estresse térmico, o aumento da frequência respiratória e as alterações no equilíbrio ácido-base podem reduzir a disponibilidade de cálcio ionizado e de  íons bicarbonato, ambos essenciais para a formação do carbonato de cálcio (Butcher; Miles, 1990; Chang, 2020). Quando o estresse térmico por calor se prolonga, a redução do consumo de ração e alterações na expressão uterina de genes relacionados ao transporte de cálcio e bicarbonato também podem comprometer a mineralização, aumentando o risco de ovos com menor resistência e de perdas por quebra (Aryal et al., 2026).

Do ponto de vista econômico, a qualidade da casca tem impacto direto sobre a eficiência e a rentabilidade da produção (Butcher; Miles, 1990; Elnesr et al., 2024). Mesmo pequenas elevações na ocorrência de ovos quebrados ou trincados podem representar perdas relevantes em sistemas comerciais de grande escala, afetando a classificação, o transporte e o aproveitamento industrial. Além disso, reduções discretas na resistência da casca podem resultar em prejuízos cumulativos ao longo do ciclo produtivo.

Por isso, o monitoramento da qualidade de casca deve combinar avaliações físicas, como gravidade específica, espessura e resistência mecânica, com o acompanhamento dos fatores nutricionais, sanitários e ambientais envolvidos em sua formação. Embora o manejo adequado de cálcio e fósforo permaneça entre os principais pilares desse processo, outros nutrientes e estratégias nutricionais também podem contribuir para sustentar a mineralização e a qualidade externa dos ovos, especialmente em ciclos produtivos mais longos.

Nesse contexto, produtos específicos voltados ao suporte da qualidade externa dos ovos podem contribuir para otimizar o processo de mineralização e reduzir perdas produtivas. Microminerais como manganês, cobre e zinco também desempenham funções importantes na formação da casca, e o fornecimento de parte desses minerais em fontes orgânicas pode favorecer sua biodisponibilidade (Chang, 2020; Stefanello et al., 2014).  O zinco, por exemplo, atua como cofator da anidrase carbônica, enzima envolvida na disponibilização de bicarbonato para a formação do carbonato de cálcio; o manganês participa da formação da matriz orgânica da casca, enquanto o cobre está relacionado à formação de suas membranas (Elnesr et al., 2024).

O Bio Casca, é um premix mineral vitamínico desenvolvido para poedeiras comerciais e matrizes pesadas, formulado com microminerais — zinco, manganês, cobre, ferro e selênio — provenientes de fontes orgânicas e inorgânicas, além de vitamina D₃, inositol e alga calcária (Lithothamnium sp.). Sua formulação foi desenvolvida para auxiliar o processo de formação da casca, contribuindo para sua resistência e qualidade. A vitamina D₃ presente no produto desempenha papel fundamental no metabolismo do cálcio e do fósforo, favorecendo a absorção e a utilização desses minerais no processo de mineralização  (Chang, 2020; Sinclair-Black; Garcia; Ellestad, 2023 . Dessa forma, o Bio Casca contribui para a manutenção da qualidade externa dos ovos e para a redução de perdas associadas a quebras ao longo da cadeia produtiva.


Luanna Sales é Zootecnista, Mestre e Doutora em Nutrição de Não Ruminantes pela Universidade Federal de Pernambuco. Atua como Consultora Técnica de Aves na Vaccinar Nutrição Animal.


Referências de pesquisa:

Aryal, B. et al. Chronic heat stress compromises egg production and quality parameters through changes in blood biochemistry and uterine gene expression in laying hens raised under cage-free environment. Frontiers in Physiology, v. 17, 1770955, 2026. DOI: 10.3389/fphys.2026.1770955.
Butcher, G. D.; Miles, R. Concepts of eggshell quality. Fact Sheet VM-69, Florida Cooperative Extension Service, Institute of Food and Agricultural Sciences, University of Florida, Dec. 1990. 3p.
Chang, A. Importância da nutrição na qualidade da casca do ovo para os reprodutores de frangos de corte. Nota da Ross (Ross Technical Note). Aviagen, 2020.
Elnesr, S. S. et al. Trace minerals in laying hen diets and their effects on egg quality. Biological Trace Element Research, v. 202, p. 5664-5679, 2024. DOI: 10.1007/s12011-024-04121-8.
Flock, D. K. Fatores genéticos e manejo que influenciam a qualidade da casca do ovo. In: Conferência APINCO 1994 de Ciência e Tecnologia Avícolas. Anais… FACTA, 1994. p. 15-21.
Fu, Y. et al. Decreased eggshell strength caused by impairment of uterine calcium transport coincide with higher bone minerals and quality in aged laying hens. Journal of Animal Science and Biotechnology, v. 15, 37, 2024. DOI: 10.1186/s40104-023-00986-2.
Gautron, J. et al. Avian eggshell biomineralization: an update on its structure, mineralogy and protein tool kit. BMC Molecular and Cell Biology, v. 22, 2021. DOI: 10.1186/s12860-021-00350-0.
Hervo, F. et al. Effect of phytase and limestone particle size on mineral digestibility, performance, eggshell quality, and bone mineralization in laying hens. Poultry Science, v. 102, n. 5, 102613, 2023.
Kursa, O. et al. Eggshell apex abnormalities caused by two different Mycoplasma synoviae genotypes and evaluation of eggshell anomalies by full-field optical coherence tomography. BMC Veterinary Research, v. 15, 1, 2019. DOI: 10.1186/s12917-018-1758-8.
Leeson, S.; Summers, J. D. Nutrition of the chicken. 4. ed. Guelph, Ontario: University Books, 2001. 591 p.
Sinclair-Black, M.; Garcia, R. A.; Ellestad, L. E. Physiological regulation of calcium and phosphorus utilization in laying hens. Frontiers in Physiology, v. 14, 1112499, 2023. DOI: 10.3389/fphys.2023.1112499.
Stefanello, C.; Santos, T. C.; Murakami, A. E.; Martins, E. N.; Carneiro, T. C. Productive performance, eggshell quality, and eggshell ultrastructure of laying hens fed diets supplemented with organic trace minerals. Poultry Science, v. 93, n. 1, p. 104-113, 2014.
Wang, Q. et al. Research progress on non-destructive testing technology and equipment for poultry eggshell quality. Foods, v. 14, n. 13, 2223, 2025. DOI: 10.3390/foods14132223.
Whitehead, C. C. Overview of bone biology in the egg-laying hen. Poultry Science, v. 83, n. 2, p. 193-199, 2004.
Yu, P. et al. Advances in nondestructive technologies for external eggshell quality evaluation. Sensors, v. 25, n. 18, 5796, 2025. DOI: 10.3390/s25185796.
Zhao, L. et al. Mitigation effects of bentonite and yeast cell wall binders on AFB1, DON, and OTA induced changes in laying hen performance, egg quality, and health. Toxins, v. 13, n. 2, 156, 2021. DOI: 10.3390/toxins13020156.

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