Fontes lipídicas na nutrição de suínos

Por: Marley Santos
Introdução
Dentre os diversos componentes da dieta, os lipídios desempenham um papel fundamental, tanto como fonte de energia concentrada, como fonte de ácidos graxos essenciais e componentes estruturais de células do organismo animal, que irão impactar diretamente o desempenho zootécnico. Este texto aborda as funções das fontes lipídicas na nutrição de suínos, destacando seus efeitos nas diferentes fases de criação.
1. Importância dos Lipídios na Nutrição de Suínos
Os lipídios são compostos orgânicos insolúveis em água, constituídos principalmente por triglicerídeos, fosfolipídios e esteróis. São uma fonte concentrada de energia, fornecendo aproximadamente 2,25 vezes mais energia metabolizável em comparação a carboidratos e proteínas. São essenciais para o crescimento e a eficiência alimentar de suínos, além de seu efeito sobre a palatabilidade da dieta e a qualidade de peletes quando há processamento térmico da dieta (Kerr et al., 2015).
Além disso, os lipídios são fontes de ácidos graxos essenciais, como os ômega-6 (ácido linoleico e ácido araquidônico), e os ômega-3 (ácido α-linolênico, EPA – ácido eicosapentaenóico, e DHA – ácido docosahexaenóico), essenciais para crescimento e saúde, e com efeito observado para saúde cardiovascular, redução da inflamação e desenvolvimento normal de tecidos nervosos (Gogus e Smith, 2010).
A função dos lipídios na nutrição de suínos não se resume ao fornecimento de energia e ácidos graxos essenciais. Alguns efeitos já encontrados em estudos incluem melhora na saúde intestinal e função imunológica e antibacteriana (Zentek, 2011; Lauridsen, 2020), melhora na digestibilidade e função epitelial intestinal por meio da mistura de óleos (óleo de peixe, palma e arroz; Yang et al., 2023), qualidade espermática influenciada pela quantidade de ômega-3 na dieta de reprodutores (NRC, 2012), produção de leite e seu conteúdo lipídico (Pettigrew, 1981), e modulação de reações inflamatórias (Lauridsen, 2020).
Por conta da melhora na eficiência alimentar associada à inclusão de lipídios na dieta de suínos, pode haver uma diminuição na geração de calor metabólico, o que proporciona maior conforto térmico aos animais em condições de estresse por calor (Li et al., 2018), que é relativamente comum em criações brasileiras.
No entanto, a escolha da fonte lipídica e sua qualidade são determinantes para maximizar seus benefícios e evitar efeitos negativos sobre o desempenho zootécnico.
2. Efeitos das fontes lipídicas nas diferentes fases de criação
2.1. Maternidade e reprodução
Durante a fase de maternidade e reprodução a nutrição da matriz tem consequências não só sobre as matrizes, mas também sobre as leitegadas e seu desempenho subsequente. A nutrição da matriz, principalmente um maior aporte de lipídios em sua dieta, pode ter consequências sobre sua produção de leite e a quantidade de lipídios em seu leite (Pettigrew, 1981). Também pode ter efeito sobre o desempenho de fêmeas nulíparas, diminuindo sua perda de peso durante a lactação, quando suplementadas com um maior aporte de lipídios na última semana pré-parto (Santos et al., 2022).
Com a suplementação de ácidos graxos de cadeia média e ômega-3, durante o terço final de gestação e durante a lactação, pode haver diminuição do intervalo desmame-cio subsequente. A eficácia dessa estratégia varia principalmente em função das condições ambientais às quais a matriz está sendo submetida, sendo que a eficácia é maior em climas quentes (Cox et al., 1983; Chen et al., 2019).
A inclusão de lipídios na dieta de machos reprodutores também pode melhorar a eficiência reprodutiva e a qualidade do sêmen (Yeste et al., 2011), principalmente ácidos graxos poli-insaturados, como o ômega-3.
2.2 Creche, crescimento e terminação
Na fase de creche, o sistema digestivo ainda está em desenvolvimento, e a capacidade de digestão e absorção de lipídios é limitada, principalmente na primeira semana pós desmame, aumentando gradualmente a partir da segunda semana. Nessa fase, a inclusão de fontes lipídicas de alta digestibilidade e menos saturados é essencial para fornecer energia de forma eficiente e promover o crescimento inicial.
Lipídios com alto teor de ácidos graxos de cadeia média, por serem rapidamente absorvidos e metabolizados, melhoram o desempenho dos animais nessa fase, e podem inclusive diminuir a incidência de diarreia (Gebhardt et al., 2019; Mellick et al., 2019; Swanson et al., 2021). Por outro lado, lipídios de baixa qualidade e peroxidados têm efeito contrário, afetando negativamente as vilosidades intestinais, reduzindo a absorção de nutrientes (Rosero et al., 2015).
Nas fases de crescimento e terminação a inclusão de lipídios de qualidade na dieta melhoram, de maneira geral, o desempenho dos animais, com maior ganho de peso e melhor conversão alimentar (Gaffield, et al., 2022; Bromm et al., 2023). Porém, apesar de melhorar o rendimento de carcaça, tende a aumentar a espessura de toucinho (Broom et al., 2023).
Conclusão
Os lipídios possuem uma importante função na nutrição de suínos, principalmente fornecendo energia concentrada e ácidos graxos essenciais que impactam positivamente o desempenho dos animais em todas as fases de crescimento. É importante escolher adequadamente a fonte lipídica, levando em consideração sua qualidade e perfil de ácidos graxos, para potencializar sua ação e garantir a saúde e a produtividade dos animais. A inclusão de forma acertada de lipídios na dieta pode afetar o desempenho, a qualidade da carne e a eficiência reprodutiva, contribuindo para a sustentabilidade e a rentabilidade da produção.
REFERÊNCIAS
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