Do rúmen ao tanque: como a cultura de levedura pode aumentar a eficiência de vacas leiteiras

Por Ivens Haponiuk
Em vacas leiteiras de alta produção, atender às exigências de energia, proteína, fibra, minerais e vitaminas é apenas parte do desafio. Tão importante quanto fornecer nutrientes em quantidade adequada é criar condições para que eles sejam efetivamente aproveitados. E boa parte dessa eficiência começa no rúmen.
À medida que aumenta a produção de leite, cresce também a necessidade de dietas com maior densidade energética e, normalmente, maior participação de carboidratos fermentáveis. Esse cenário permite sustentar altas produções, mas também aumenta o desafio de manter um ambiente ruminal estável. Quando a produção de ácidos supera a capacidade de utilização e absorção pelo rúmen, o pH pode diminuir e comprometer principalmente a atividade das bactérias responsáveis pela digestão da fibra. É nesse contexto que as culturas de levedura têm ganhado espaço na nutrição de vacas de leite.
Mais do que simplesmente levedura
Nem todo produto à base de derivados de fermentação é igual. A cultura de levedura é obtida a partir de um processo controlado de fermentação, no qual são formados diferentes metabólitos e compostos capazes de interagir com os microrganismos naturalmente presentes no rúmen. Dessa forma, cepa, meio de fermentação, processo produtivo e perfil metabólico final também fazem parte da tecnologia. Na prática, o objetivo é favorecer um ambiente ruminal capaz de manter elevada atividade fermentativa sem comprometer a digestão da fibra. Dias et al. (2018), avaliando vacas submetidas a dietas com diferentes concentrações de amido, observaram que a suplementação com cultura de levedura reduziu a concentração de lactato em condições de maior desafio fermentativo, aumentou o pH médio do rúmen e reduziu o período em que o pH permaneceu abaixo de 6,0.
Além da estabilidade ruminal, existe uma relação importante com o metabolismo energético. Entre os ácidos graxos voláteis produzidos durante a fermentação, o propionato tem papel estratégico por ser um dos principais precursores da glicose nos ruminantes. Após ser absorvido, participa da gliconeogênese hepática e contribui para o fornecimento de glicose à glândula mamária, onde é utilizada principalmente para a síntese de lactose, componente diretamente relacionado ao volume de leite produzido. Culturas de levedura também podem favorecer populações bacterianas envolvidas na utilização do lactato, como Megasphaera elsdenii e Selenomonas ruminantium. Assim, seu efeito potencial vai além da manutenção do pH: envolve a forma como os nutrientes são fermentados e quais substratos ficam disponíveis posteriormente para o metabolismo da vaca.
Do rúmen ao resultado produtivo
Quando diferentes estudos são avaliados em conjunto, essa resposta se torna ainda mais interessante. Poppy et al. (2012), em meta-análise envolvendo 36 estudos e 69 comparações com uma cultura comercial de levedura, observaram aumento médio de aproximadamente 1,18 kg de leite/vaca/dia, além de incrementos próximos de 60 g/dia de gordura e 30 g/dia de proteína do leite.
Resultados semelhantes foram observados em condições brasileiras. Cecato (2023), avaliando vacas Holandesas em meio de lactação suplementadas com 7 g/vaca/dia de Cultron, encontrou produção média de 28,04 kg de leite/dia, frente a 26,78 kg/dia no grupo controle, diferença de 1,26 kg/vaca/dia. A produção de gordura passou de 1,04 para 1,11 kg/dia e a de proteína de 0,90 para 0,94 kg/dia.
Um detalhe importante é que, nesse estudo, os percentuais de gordura e proteína não aumentaram significativamente. O ganho ocorreu na quantidade total de sólidos produzidos por vaca ao dia, aspecto particularmente relevante em sistemas que buscam maior eficiência produtiva.
Esses resultados não significam que a cultura de levedura substitua os fundamentos da nutrição. Qualidade do volumoso, consumo de matéria seca, equilíbrio entre fibra e carboidratos fermentáveis, manejo de cocho e formulação adequada continuam sendo determinantes. A tecnologia deve ser entendida como parte de uma estratégia nutricional bem construída, capaz de favorecer o aproveitamento da dieta e aumentar a oportunidade de transformar nutrientes em leite e sólidos.
TECNOLEITE HD+: eficiência que começa no rúmen
É justamente dentro dessa proposta que o TECNOLEITE HD+, núcleo para vacas em lactação da Vaccinar, incorpora a cultura de levedura entre suas tecnologias nutricionais. A proposta é ir além do atendimento das exigências nutricionais, atuando também sobre um dos pontos centrais para vacas de maior produção: a eficiência do ambiente ruminal e o aproveitamento dos nutrientes fornecidos na dieta. Porque, em sistemas de alta produção, não basta pensar apenas no que chega ao cocho. É preciso considerar o que acontece com esses nutrientes depois que a vaca os consome. Antes de chegar ao tanque, boa parte do resultado começa dentro do rúmen.

Ivens Haponiuk é Médico Veterinário, Mestre e Doutorando em Ciência Animal pela PUCPR. Atua como Especialista em Nutrição de Ruminantes – Bovinos de Leite na Vaccinar Nutrição Animal.
Referências de pesquisa:
DIAS, A. L. G. et al. Effect of supplemental yeast culture and dietary starch content on rumen fermentation and digestion in dairy cows. Journal of Dairy Science, v. 101, p. 201–221, 2018.
POPPY, G. D. et al. A meta-analysis of the effects of feeding yeast culture produced by anaerobic fermentation of Saccharomyces cerevisiae on milk production of lactating dairy cows. Journal of Dairy Science, v. 95, p. 6027–6041, 2012.
CECATO. Avaliação da suplementação com cultura de levedura em vacas Holandesas em meio de lactação. Dissertação de Mestrado, 2023.
